Neste meu espaço aberto, está exposto um livro incompleto......

15
Jul 09

De sorte, Maria entrou, acolheu o chamamento, o apelo à fuga à solidão.

Devagar, pé-ante-pé, passinhos curtos como quem atravessa a vau um rio sem lhe conhecer os baixios, sem lhe conhecer as correntes, ou as manhas.

Depois, levada pelo suave marulhar das água calmas, deixou-se embalar, despiu um pouco a alma, estendendo sem medo o corpo na tepidez da corrente e fez-se Luisa.

De sorte, à sorte de uma companhia atormentada no momento, foi-lhe dado fragmento duma vida, ao conhecimento.

De sorte soube ler, constrangimento sentiu. 

Despiu-se um pouco mais, expondo dor passada, não esquecida certamente, como quem segura o seu próprio livro e o vai folheando para outrém ler, porque crê que o saberá.

De sorte, a sorte sorriu e por breves momentos a solidão partiu. 
De sorte.  

      

publicado por noitesemfim às 03:59

11
Jul 09

 

 

....(cont)....

 

 

A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, conscientedele, vejo essa paisagem. . . e essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela.

Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores, e aquelas flores e aquelas vias em desvios c aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar, que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver. . .

De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e

sinto, um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou atual destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de noturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só-ela a paisagem daquele outro mundo...

Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de

bruma, no horizonte d'essa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível...

Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher. . . Um grande cansaço é um fogo negro que me consome. . . Uma grande ânsia passiva é a vida que me estreita. . .

Ó felicidade baça... O eterno estar no bifurcar dos caminhos! . . . Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. . . E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe. . .

Lá fora a antemanhã tão longínqua! a floresta tão aqui ante outros olhos meus!

E eu, que longe desta paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades d'ela. e é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro. ..

As árvores! as flores! o esconder-se copado dos caminhos!. . .

Passeávamos às vezes, de braço dado, sob os cedros e as olaias, nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte.

Dávamo-nos as mãos e os nossos olhos perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor. ..

No nosso jardim havia flores de todas as belezas. . . rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoulas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume. . . E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.

Nós roçávamos a alma toda vista pelo frescor visível dos

musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras. . . E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes o éramos. . .

Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes. . .                                                                                      

 

 

 

(.......Cont. + tarde......)

publicado por noitesemfim às 18:02

08
Jul 09

 

NA FLORESTA DO ALHEAMENTO
 
Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda ..
Sinto-me febril de longe. Peso-me não sei porquê…… Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre um sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-me, misturam-se e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro, e incerta, altera-me como a brisa aos perfis das copas. Na alcova mórbida e morna da antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta….Para que há de um dia raiar? .... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo….Entorpeço-me. Bóio no ar entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, de que onde que não é esse….
Surge mas se apaga esta, esta alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
Que nitida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ….
E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar? …. E eu nem sei querê-lo saber....
......./…....(cont + tarde, noutra página até o livro estar gravado)
 
    
 
publicado por noitesemfim às 15:45
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09
Jun 09

 

Por acaso, pouco ao acaso confesso, já que os meus passos para ali me guairam, passei junto à Casa Museu José Régio, situada em Portalegre cidade do Alto Alentejo e lembrei-me de que há muito, muito tempo, estudante então, houvera lido este poeta e tinha retido na memória, já um tanto gasta, um seu poema de que particularmente gosto.

Por puro acaso então, encontrei um amigo a quem falei do assunto. Espanto meu, sorte a minha também é posssidor de uma edição DOS POEMAS DE DEUS E DO DIABO assinada pelo próprio autor em 1958. Ignorando as novas tecnologias, a do scan, neste caso, decidi transcrevê-lo numa tentativa de uma nova interpretação, agora mais madura.

 

«Vem por aqui»- dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem «vem por aqui»!

Eu olho-os com olhos lassos

(Há nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços, 

E nunca vou por ali...

 

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar niguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem vontade

Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam os meus passos....

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde, 

Porque me repetis: «vem por aqui»?

 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por ai....

 

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada

 

Como pois sereis vós 

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos? 

Corre, nas vossas veias sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos

 

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

 

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.

Mas eu, que nunca principo nem acabo.

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Niguém me peça definições!

Ninguém me diga «vem por aqui»!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

- Sei que não vou por aí!

 

José Régio

 

Li, reli, transcrevi e voltei a ler e apenas posso concluir:

Sei para onde quero ir mas não sei por onde vou. E tenho a minha Loucura  

publicado por noitesemfim às 03:59
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