Neste meu espaço aberto, está exposto um livro incompleto......

10
Jun 09

Nasci e cresci um pouco, digo pouco porque foi apenas até aos seis anos, numa pequena aldeia do Alentejo. Como tantas aldeias foi perdendo população e tem hoje pouco mais de 600 habitantes.

Da história, "reza" que nos anos 60, os habitantes, primeiro os homens depois as mulheres e seguidamente as famílias começaram a migrar para outros pontos do país onde a vida lhes era financeiramente mais proveitosa mas não menos árdua. O mesmo aconteceu com os meus progenitores e logicamente comigo, com a família afinal.

Durante décadas as famílias voltavam em alturas festivas, Páscoa, Natal, e no verão por altura das festas anuais. Guardo gratas imagens desses tempos em que um qualquer habitante deslocado, e mais expedito, organizava excursões de lá para cá e o regresso. À chegada eram largados foguetes, o adro da igreja enchia-se das gentes para abraçar os que por ora chegavam.

E era uma festa antes das festas.

Após o sol se pôr, quando as temperaturas eram amenas ou mesmo mais elevadas, era ver as ruas repletas de gente em amena cavaqueira, sentadas à porta de casa, trocando conversas, mesmo de aldeia, de um lado para o outro da rua, ou rua abaixo ou acima.

Nós crianças correndo rua abaixo, rua acima a brincar às escondidas aos "indios e cowboys" a jogar à bola quais "eusébios", marcando golos em balizas definidas por pedras da calçada.

Establecendo o paralelo dir-se-à: "Com tão pouco se contentavam as gentes de então".

Porém o tempo passava célere e chegava o dia de regressar à labuta e aì já não havia fogetes. Havia um mar de gente, um mar igual ao da chegada mas os semblantes como que se transfiguravam, forçava-se o riso e as palavras agora eram de ânimo na esperança de que o tempo passasse depressa para novo reencontro, novas conversas, mesmo que iguais, e para novos foguetes enchessem o céu de luz e troassem como trombetas anunciando boas novas.

E hoje? Agora? Nada é igual, nem poderá jamais ser. Hoje as ruas estão desertas, nem cadeiras nas ruas nem pessoas nelas sentadas.

Hoje impera o silêncio, cada ser humano fecha a sua porta, alguns fecham-se em si próprios.

É triste a minha aldeia, mas é igual a tantas outras.

Continuo a amá-la, continuo teimosamente a regressar, por dias, poucos, por horas algumas vezes e tantas vezes cá venho sem cá estar.   

 

 

 

 

publicado por noitesemfim às 23:34

 

Eis a razão do nome deste blog.

Sei que não sou obrigado a explicá-lo, sei que não tenho o direito de exigir ser comprendido,

Tenho afinal apenas a necessidade de confessar a mim próprio que nasceu duma indecisão o noitesemfim. Cada um interpretará à sua maneira e eu próprio  o faço de duas.

Sou de humores, sou humano afinal, e como qualquer mortal eu erro e faço e digo coisas que ferem, faço e digo coisas que enaltecem o ego de qualquer pessoa, inclusivé de mim próprio e em ambos os casos.

Sempre gostei da noite, do seu silêncio, silêncio que me excita os sentidos. E é desse silêncio que me alimento para me auto-analisar, para formatar actos e palavras que são executados uns e ditas as outras, no bulicio, na lufa-a-lufa do dia, quer acabe o sol  de nascer, vá alto ou esteja no ocaso. Assim pensando teria chamado a este espaço de escrita, de exposição sentimental ou racional, noites enfim. Como que proclamando como uma benção a chegada destas e do seu silêncio.

Porém, outras razões me assistem para não desejar o prolongamento do silêncio nocturno e uma delas é a solidão. Não, não é medo da solidão. É outra qualquer coisa inexplicável que em meio secúlo de vida tenho procurado e não encontrei ainda e talvez nunca vá descobrir. 

Se nos cingirmos aos factos reais, não filosóficos, e analisando vidas que nos passam ao lado, mesmo ao lado e até nos tocam, verificamos que as pesoas precisam umas das outras, e atrevendo-me a fazer a apologia das Escrituras, sem veleidades de ofender quem professe outras fés, Deus criou o Homem e a Mulher para que um deles não estivesse só, sozinho enfim na solidão. Toda a regra tem excepção, dirão  e jamais eu poderia contradizer tal facto!

Na procura da explicação do que a solidão provoca em mim e enfrentando-a sem medo, fui-me descobrindo e pese embora o facto de não ter ainda, como anteriormente afirmei, encontrado a racional final, aquela que nos leva a seguir por um qualquer caminho por nós traçado ou aceite, uma certeza tenho comigo, quando a solidão acaba há que ter alguém ao nosso lado. Nesta prespectiva ititularia o meu blog de noite sem fim e viveria na esperança, quem sabe na procura insana de ter alguém ao meu lado quando a noite tivesse fim..

É então nesta indefinição perante o que sinto, face à solidão para onde a noite me empurra inexoravelmente, que defini o blog como noitesemfim.    

A mescla, por assim dizer, não nasce apenas da razão, do racional, nem nunca assim poderia ser porque eu sou uma pessoa de paixões e a paixão é tantas vezes, demasiadas vezes, inimiga, contraditória da razão.           

 

publicado por noitesemfim às 00:46

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