Neste meu espaço aberto, está exposto um livro incompleto......

09
Jun 09

 

Cinco da tarde e é noite cerrada em mim.
Eu que soldado sou, faço agora turnos continuos de sentinela.
Sem rendições temporárias resisto ao cansaço. É impossivel ficar dormente já que a minha atençâo zela por outros que soldados são e descansam.
Qualquer som, por mais surdo que seja me desperta de imediato os sentidos pondo-me o corpo em sobressalto e fazendo com que corra até ao lugar de onde me pareceu ter surgido.
Nâo, não é viver, é apenas sentir, é somente ter os sentidos em alerta, não vá o milagre acontecer.
Lembro-me da fábula, revejo-me na raposa que por não chegar às uvas que desespradamente pretendia comer, as deu como imaturas, inuteis, despreziveis até, e afastando-se da vide com fingida indiferença de imediato se voltou quando uma simples folha empurrada pelo vento esvoaçou e tocou o solo em surdina.
Assim estou eu, passa um carro levanto a cabeça, apuro os sentidos, toca o telefone e sofregamente o agarro, com redobrada esperança fixo o visor, ouço passos mesmo leves e ergo o corpo cansado, corro em direcção à porta na esperança de ver quem não é. Quando alguma voz me chama demoro a responder porque o tom não tem o da voz que anseio ouvir. Sem vontade respondo, por monossilabos carregados de tristeza que à força não quero deixar transparecer.
Rio com a alegria dos que me rodeiam, e por dentro choro lágrimas de tristeza infindável, infinita.
O pensamentos em turbilhão e eu que soldado sou, vou sentindo o amargo sabor da derrota.
Por vezes, porque soldado sou, sou impulsionado pela bravura ou será desespero? de pensar que é apenas uma batalha que estarei a perder.
E nesse momento, porque soldado sou, ergo as minhas reservas, tão poucas serão agora e penso, sonho, mesmo acordado, que a batalha será por nós ganha, porque soldado sou, tal como tu és.
E quando sonho, como em cenário já visto em antes, vejo as ruas engalanadas, as gentes, as nossas, aclamando em unissono, com a alegria espelhada nos rostos e abraçando-nos e chorando de júbilo pela nossa vitória.
Não esquecendo os atropelos das batalhas travadas, o ribombar dos canhões como vozes dissonantes, o som da metralha mortal, a lama das trincheiras que cavámos para nos proteger de uns, de outros e até de cada um de nós prórios, eu que soldado sou, assim sonho.
Depois como qualquer soldado, com todos os soldados desta vida, é o regesso a casa.
publicado por noitesemfim às 18:55
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Por acaso, pouco ao acaso confesso, já que os meus passos para ali me guairam, passei junto à Casa Museu José Régio, situada em Portalegre cidade do Alto Alentejo e lembrei-me de que há muito, muito tempo, estudante então, houvera lido este poeta e tinha retido na memória, já um tanto gasta, um seu poema de que particularmente gosto.

Por puro acaso então, encontrei um amigo a quem falei do assunto. Espanto meu, sorte a minha também é posssidor de uma edição DOS POEMAS DE DEUS E DO DIABO assinada pelo próprio autor em 1958. Ignorando as novas tecnologias, a do scan, neste caso, decidi transcrevê-lo numa tentativa de uma nova interpretação, agora mais madura.

 

«Vem por aqui»- dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem «vem por aqui»!

Eu olho-os com olhos lassos

(Há nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços, 

E nunca vou por ali...

 

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar niguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem vontade

Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam os meus passos....

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde, 

Porque me repetis: «vem por aqui»?

 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por ai....

 

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada

 

Como pois sereis vós 

Que me dareis machados, ferramentas, e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos? 

Corre, nas vossas veias sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos

 

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátrias, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

 

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.

Mas eu, que nunca principo nem acabo.

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Niguém me peça definições!

Ninguém me diga «vem por aqui»!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

- Sei que não vou por aí!

 

José Régio

 

Li, reli, transcrevi e voltei a ler e apenas posso concluir:

Sei para onde quero ir mas não sei por onde vou. E tenho a minha Loucura  

publicado por noitesemfim às 03:59
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